TERRITORIOS FORJADOS  #3

 

 

Andrey Zignnatto realiza em sua produção operações que se vinculam diretamente ao espaço. São construções e rearticulações de elementos do cotidiano usados em relação aos espaços onde eles estão inseridos, unidades de medida para as superfícies no qual o artista age, como uma régua na escala de um papel emoldurado, ou o próprio papel milimetrado, que carrega em si sua medida. Em suas instalações de tijolos, é possível traçar um paralelo, um tijolo é uma possível unidade de medida dos espaços construídos onde a obra do artista se coloca.

 

O Tijolo, material eleito por Zignnatto em alguns de seus trabalhos, retoma também a escala humana das construções. A presença dele, nos faz lembrar que, não importa o quão grande uma construção é, a escala da unidade que cabe em nossas mãos está presente no espaço, e é parte constituinte dele. De certo modo, nestes projetos o artista presta reverência aos minimalistas, parte da modulação do material industrializado e seriado para a execução de suas instalações.

 

A obra Erosões, que agora o artista apresenta na Funarte São Paulo, é constituída de uma série de blocos de tijolos cerâmicos. Alguns deles mantem sua forma comum, aquela originalmente desenvolvida pelas fábricas cerâmicas, e outros recebem intervenções, onde o artista executa cortes no barro ainda mole, antes das peças irem à fornalha. Na montagem estes tijolos, os originais e os alterados pelo artista, assumem a configuração de um território em desabamento, de um desenho topográfico.

 

Parece que uma escora, ou uma fôrma, moldou ou seccionou o trabalho. Um segundo solo, paralelo ao original é construído. O exercício aqui, mais que nos outros trabalhos da série, é de contenção e escape. Tudo está contido na arquitetura dessas duas salas, desabando apenas na passagem que seria a entrada principal. É difícil observar estes elementos usados na exposição sem pensar na força de deslocamento, nesses objetos sendo carregados.

 

Maquete topográfica agigantada, ou miniatura de paisagem, vale lembrar que a palavra “forjados” joga com um sentido duplo, define aquilo que é aquecido e trabalhado, mas também carrega em si a definição de falsear, produzir um elemento falso. O trabalho do artista certamente carrega essa dimensão ficcional, suas topografias e territórios se mantem na dimensão do homem, mas ambicionam a monumentalidade de uma paisagem. De certo modo, o que o artista opera, para além de uma construção a partir destes módulos de tijolos, é uma certa transmutação da matéria. Terra removida da paisagem vira tijolo, e volta a ser paisagem. O elemento aparentemente viscoso é sólido, e o sólido adquire configuração viscosa, sem nunca deixar de ser sólido, assim como o próprio tijolo nunca deixou de ser terra. Tudo é forjado através das convenções do olhar.

 

Douglas de Freitas | Agosto de 2015

curador e crítico de arte