ESPAÇO-EXERCÍCIO   (a partir de “Erosões”, “Manta [Segunda pele]” e “Sem título”)

 

 

Da certeza de morrer em um espaço que fora habitado por tantas gerações, seguida pela lamúria de que “preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos”, sobrou uma casa tomada. E é ela, talvez, o principal personagem do conto de Julio Cortázar, escrito em 1946, já que é nela que o irmão de Irene deposita a culpa por não terem se casado e é acerca da casa – seus cômodos, revestimentos, circulações – que ele desenvolve o solitário périplo dos dois, ou melhor, da casa: sua inesquecível distribuição, seu espaço profundo e silencioso, o empenho em mantê-la limpa. Quando foge, o narrador parece findar ali, na porta da casa, a história dos dois irmãos “sem olhar para trás”, pois a ideia de alguma continuação, de um outro possível ou reticente fim é transferido para aquele espaço tomado: “Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada”.

 

Figura central no conto de Cortázar, o espaço como instância dizível, interpretável, ocupável é narrado/partilhado/discutido pelas mais diversas disciplinas, vontades, agentes. E mesmo que não se tenha chegado à exaustão, é possível aferir um tanto acerca de sua concepção, sobre as ações que o resignificam ou lhe acrescentam camadas, acerca de seus usos e apropriações, das memórias que agencia, como reinstaura-se em distintos projetos, como atua entre os que o vivenciam. Por outro lado, todas as conjugações empenhadas para se construir, pensar, habitar o espaço ainda colocam questões: onde residem e quais são os possíveis entendimentos sobre o espaço, se estão ali mesmo, se são aderências, se são explanações temporais ou conceitos empreendidos para fazer mover e ocorrer outras formas de produção e percepção?

 

Andrey Zignnatto abre seus processos artísticos a questões como estas, ampliando e compondo ingressos e percursos do corpo, convidando ao envolvimento, à interação física com o espaço. O artista opera desvios que, entretanto, não implicam na redução da experiência do público no espaço. Acrescenta mediações materiais que criam relativizações no caminhar, nas escolhas de percurso, na hegemonia do olho na tarefa de perscrutar o espaço. Assim, a experiência de subir os degraus da escadaria do Paço das Artes parece não se esgotar no usufruto de uma estrutura para se chegar à porta, mais que isso, há estímulos que se formulam no atrito entre a escada e “Erosões” e que entrecruzam as noções da estrutura arquitetônica desse aparato de trânsito e a elementariedade do tijolo. Numa experiência de instauração de matérias, conceitual e volumetricamente falando, o artista reforça cada degrau e, ao mesmo tempo, cada tijolo montado. Propõe desacordos e, contraditoriamente, aderência entre estes elementos.

 

Em “Erosões”, assim como em “Segunda Pele” da série Manta, os procedimentos de Andrey associam o percurso entre a olaria e o Paço das artes ao conhecimento do espaço em que os trabalhos vão se dar. Assume como recurso a percepção do espaço, tanto como momento constitutivo de suas ações, como quanto intencionalidade de seus projetos. São operações composicionais e processuais que partem de um vetor de origem – a olaria – e que se espalham em tangentes que se organizam e tomam rumos a partir de relações explícitas com os lugares onde as obras vão ser instaladas.

 

É com o intuito de realizar escutas aos espaços que o artista torna porosos os métodos evidentemente prospectivos, bastante habituais em processos artísticos e arquitetônicos. É sempre da natureza do “surpreendente”, comenta Andrey. O projeto existe enquanto etapa, mas Andrey assume as diferenças entre os contextos e tempos da olaria e do espaço expositivo e constrói negociando com as características anatômicas dos espaços. Assim, projetos como o desenho-intervenção “Sem Título” da série Estudos Para Novas Propostas de Interpretação do Espaço Físico, pensado para o Paço, são concebidos e executados na validação de recuos, transformações e contaminações com o espaço. Entre a resistência e o peso dos materiais e a função dos instrumentos dos quais se vale para este corte na parede expográfica, deposita elasticidade e uma existência mutante que o fazem circundar, como sujeito ativo e inventivo, e atravessar o terreno da escultura a partir de uma lente muito sensível, a se dizer, fenomenológica: o espaço existe neste hic et nunc . Andrey avista e leva em conta o público, a escala dos corpos e dos gestos, dos elementos arquitetônicos, as formulações imprevisíveis e subjetivas de estratégias e pausas de circulação.  

 

Desses processos em ativação no Paço das Artes, Andrey busca uma relação, ainda que transitória, com o espaço como meio comunicativo, como veia de ação poética, como elemento, zona, procedimento. Para se efetivar um visão mais especulativa: a partir do uso de quatro mil blocos cerâmicos, conforme calcula o artista em seus desenhos preparatórios. Nesse sentido, pode-se propor uma comparação com o que passou a ser chamado de “câmera-caneta”: em parcas linhas, um conceito de cinema ligado a uma expressão íntima e pessoal de um autor e associado à ideia de que diretor e roteirista estariam encarnados numa mesma figura autoral e por isso associados a um autor que escreveria com a câmera, assim como o escritor que escreve com uma caneta. E esta mera apreensão favorece uma percepção do espaço desenhado por Andrey como espacialidade vivida e em construção, como lugar da obra e como obra, como contexto de criação e elemento de autoria: um espaço-exercício.

 

Galciani Neves [agosto/2015]

curadora e crítica de arte