ESTUDOS PARA NOVAS PROPOSTAS DE INTERPRETAÇÃO DO ESPAÇO FÍSICO

 

 

Se admitirmos a simples premissa de que o tempo e a ação do homem, como duração, foram capazes de gerar lugares e, a partir destes, também suas ruínas e memórias. Se aceitarmos o fato de que nos encontramos em uma dada situação, construída por tendências (postas como) naturais, por notórias evidências, por eventuais decisões que fogem à qualificação. Podemos pensar que os códigos, aos quais recorremos para entender os “aqui” como lugares, não são provenientes de um campo neutro. Talvez tão material quanto intangível, este campo é um acúmulo de nossos movimentos, de nossos rastros e das narrativas que se inclinam e que acabam por se reconfigurar umas às outras, modificando nossos hábitos, desencadeando novas ordenações. Assim, vivemos a formidável aventura de estar nos lugares e por eles nos deixar afetar, tanto quanto os afetamos numa constante conjugação de incômodos, de saltos, de zonas de conforto. Constroem-se, enfim, os lugares. Construímo-nos por entre eles e suas etapas. Num mundo viabilizado por coisas que ocupam lugares e fornecem geometrias e presenticidades, podemos pensar que as imagens também são coisas, e o artista é um de seus realizadores. Ele as constrói, reiventa-se como homem e nesta medida de estar e se entender no mundo, confere às imagens uma espécie de força de combate, por vezes, até mais real do que a própria noção que formula acerca do real (Nota: uma construção poética não é um objeto bem comportado no mundo, a cumprir a tarefa designada por seu autor. Pode, antes, ser algo em aberto, a se construir, em gerúndio).

 

Dados alguns termos das negociações inerentes ao espaço físico e, portanto, das motivações deste fazer chamado interpretação, Andrey Zignnatto projeta sua experiência de produção na olaria, com as argilas extraídas de barreiros, com os mestres deste ofício em áreas quase sempre marginais aos rios, e age materialmente no espaço, incluindo soluções técnicas, poéticas, éticas, políticas. Nesta investida, o estatuto radical da matéria-prima, o tijolo, e todas as instâncias a ele coligadas fomentam disparidades entre o lugar de sua origem e o espaço de exposição - nunca neutro, mas cujas características não são preponderantes na construção. O artista dispõe a matéria a rebatimentos, fricções de coordenadas entre seus lugares de atuação, entre seus “aqui”. E nós, neste fluxo tenso, nos questionamos acerca da distância lógica e operante - lugar, cena vista, construção do lugar como processo.

 

Abarcando essas distâncias, as fotografias da série “Estado de Repouso” presentes nesta mostra ocorrem como registros da ação do artista nos lugares de descanso da olaria, zonas onde repousam os materiais. As fotografias são o que são - homem, local do trabalho, gesto de pausa. São sucintamente o que seria próprio e comum no trabalho na olaria que adormece por um tempo até que o sinal soe e chame seus funcionários de volta à lida. E assim é que estas imagens estão à nossa frente, sem ilusão. Em sua elementariedade, sem planos mirabolantes para fundamentar tais registros pois não intentam fazer uma ponte que poderia nos guiar à olaria. São a contradição entre os lugares, que se viabiliza também pelo corpo do artista, e nos afirmam que estamos aqui e não lá.

 

Parece válido estreitar aqui uma certa perspectiva sobre o percurso de Andrey: ele pode ser percebido como capítulos. Cada obra, instalada e formuladora de um “aqui”, é como uma continuação de um processo anterior e atua também como um disparador de questões para experimentações a ela contíguas. Ainda assim, não se trata de uma proposição para observarmos o todo como um conjunto de consequências interligadas, mas, antes, como cada consequência e cada lugar onde os trabalhos ocorrem apontam para reflexões críticas e se tornam molas propulsoras para outras e distintas operações escultóricas, bastante concretas, que envolvem o espaço como acontecimento estético e uma dimensão invisível/indizível que, obviamente, é parte destas formas em processo. À falta de um verbo adequado, Andrey estabelece um trânsito - olaria e espaço expositivo - e neste ínterim, ambos são ateliês, são lugares de prática, de formulação de dilemas que negam o esquema construtivo do tijolo como ready-made e a digressão à rude e arcáica origem do tijolo. Para o artista, o tijolo é uma das possibilidades de atingir o espaço, como elemento e como força que se insere violentamente. E o tijolo não deve ser visto como denominador comum de seus princípios de composição. Experimentação que comprova esta percepção encontra-se em “Ação vertical” e “Ação horizontal”, desenhos que compõem “Estudos para novas propostas de interpretações do espaço físico”. Uma grelha ortogonal de linhas feitas à mão que se reposicionam pela ação de deslocamento de outras duas grelhas que estão contidas em duas molduras. É da grelha geral, espalmada na parede da Funarte, que um “prumo” atravessa e ganha o espaço e o objeto “guilhotina” irrompe a parede. Nestas ações de desenho como projeto, Andrey reequaciona o procedimento de medir o espaço e cria nexos de ocupação. O artista admite a parede como estrutura arquitetônica e, com esta condição, também a esquematiza como elemento de composição.

 

Com este projeto, Andrey toma fôlego para arquitetar um corpo de tijolos. Corpo coletivo, de uma multidão, como paisagem, como recorte brusco de uma fatia do espaço, que solicita outros percursos no espaço, espalhando-se duramente no espaço. Daí, podemos participar, com corpo e escala humanos, das soluções que se encaminham desde o barro mole, das áreas de descanso da olaria, dos acertos e negociações com os mestres, dos cortes e redesenhos do objeto e das composições que se atraem, em termos, pela especificidade do espaço, mas também pela vontade de se infiltrar neste. Aqui, habitam os argumentos para uma interpretação/construção/apropriação do espaço. E um tanto de planaridade, de serialidade, de lógica compositiva. E um tanto de erosão.

 

 

Galciani Neves [abril/2015]

Curadora e crítica de arte